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O Lado B Da Maconha Medicinal


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  • Usuário Growroom

Revista Época

por Cristiane Segatto

Você é a favor ou contra a legalização da maconha? Se tiver dúvidas estará em melhor situação do que aqueles que têm uma visão passional sobre o tema. No Brasil, essa discussão ocorre num clima de Fla-Flu altamente improdutivo. Sobra opinião desinformada e falta análise objetiva.

Uma boa contribuição para o debate é observar o que aconteceu nos Estados Unidos desde que a maconha foi liberada em algumas regiões para uso medicinal, recreativo ou ambos. Um desses estados americanos é o Colorado, que se tornou um verdadeiro laboratório vivo. O que acontece ali é estudado em detalhes desde 2009. É uma forma de avaliar o impacto que a legalização da droga teria caso fosse adotada no país todo.

Um novo e amplo estudo sobre o caso do Colorado ficou pronto neste mês. A íntegra você pode acessar aqui. Um dos líderes do trabalho é o sociólogo Kevin Sabet. Ele é diretor do Instituto de Política de Drogas e professor-assistente no Departamento de Psiquiatria da Universidade da Flórida.

Sabet não mistura o debate sobre drogas com política. Por isso, foi o único a atuar como conselheiro em administrações tão distintas quanto as dos presidentes Bill Clinton, George Bush e Barack Obama.

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“A legalização é uma solução simplista para um problema complicado”, diz Sabet. Ao analisar o impacto social de drogas legais, ele ressalta que, nos Estados Unidos, o álcool é responsável por mais de 2,6 milhões de prisões por ano. Quase 1 milhão de prisões a mais do que as provocadas por drogas ilegais.

Neste sábado (23), Sabet participará de um debate no Palácio dos Bandeirantes, em São Paulo. Foi convidado pelo psiquiatra Ronaldo Laranjeira, presidente da Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina (SPDM). Nesta coluna, você acompanha em primeira mão os principais pontos da palestra que Kevin fará durante o evento.

O Colorado liberou o uso de maconha medicinal há 13 anos. Em 2009, ocorreu uma grande expansão de pontos de venda. Cerca de 3% dos adultos receberam licença para uso da droga e surgiram mais de 700 farmácias dedicadas ao produto. A facilidade de acesso trouxe consequências.

Na capital, Denver, 74% dos adolescentes em tratamento contra dependência química afirmaram ter consumido a maconha medicinal de outra pessoa. Fizeram isso, em média, 50 vezes. Em 2013, dentre os estudantes do último ano do ensino médio que consumiram a droga, 60% afirmaram ter conseguido maconha com amigos. Apenas 25% compraram de traficantes ou estranhos.

Em novembro de 2012, o Colorado também liberou o uso recreativo da droga para adultos acima de 21 anos. As primeiras lojas do produto foram licenciadas em janeiro de 2014. “Só o tempo dirá qual o impacto dessa medida no país”, ressalta Sabet. “Os cinco anos de experiência do Colorado com maconha medicinal é um bom indicativo do que pode ocorrer”.

O que aconteceu? A seguir, os principais achados da pesquisa:

CONSUMO POR JOVENS

* Em 2012, a média de uso de maconha por adolescentes de 12 a 17 anos no Colorado era 39% mais alta que a média nacional. O índice de consumidores da droga nessa faixa etária era de 10,4% no estado e de 7,5% no país.

* A quantidade de suspensões ou expulsões da escola aumentou 32% na comparação entre os anos letivos de 2008 e 2012. A maioria dos casos envolveu o consumo de maconha.

CONSUMO POR ADULTOS

* Em 2012, a porcentagem de estudantes entre 18 e 25 anos que fumavam maconha no Colorado era 42% mais elevada que a média nacional. O índice de consumidores da droga nessa faixa etária era de 26,8% no estado e de 18,8% no país.

* Em 2012, 7,6 dos adultos acima de 26 anos fumavam maconha regularmente no estado – índice 51% mais elevado que a média nacional (5%).

* Entre todos os adultos que foram presos na capital Denver em 2013, 48% tinham testes positivos para uso de maconha. Um aumento de 16% em relação a 2008.

O EFEITO NO TRÂNSITO

* O número de mortes em acidentes de trânsito envolvendo motoristas que haviam fumado maconha aumentou 100% entre 2007 e 2012.

* A maioria das prisões por direção sob influência de drogas envolveu maconha. Em até 40% dos casos, o motorista havia usado apenas maconha.

* Os testes positivos para maconha em motoristas aumentaram 16% entre 2011 e 2013.


O EFEITO NOS HOSPITAIS

* Entre 2011 e 2013, os atendimentos de emergência de pacientes que haviam fumado maconha aumentaram 57%.

* As internações relacionadas à maconha cresceram 82% entre 2008 e 2013.

Não são dados desprezíveis. O que aconteceria se a maconha fosse legalizada no Brasil, pelo menos para uso medicinal? Muitos especialistas temem que o propósito seja desvirtuado como aconteceu no Colorado. “Em primeiro lugar, não existem evidências comprovadas de que fumar maconha faz bem à saúde”, diz o psiquiatria Ronaldo Laranjeira.

“Além disso, grande parte das pessoas que possuem licença para adquirir maconha medicinal nos Estados Unidos sequer tem problemas graves de saúde”, afirma. Para ele, essa é uma situação que poderia se repetir em qualquer país, inclusive no Brasil.

Laranjeira não se opõe ao uso de medicamentos que contêm substâncias presentes na maconha. É o caso do canabidiol. Atualmente a importação de remédios feitos a partir de componentes da maconha não é liberada no Brasil. Só pode ocorrer com autorização judicial.

Famílias de pacientes que sofrem com doenças graves (como epilepsia resistente a qualquer medicamento convencional) depositam esperança no tratamento com produtos como o spray Sativex, do laboratório britâncio GW Pharmaceuticals.

É compreensível que as famílias tenham pressa, mas o conhecimento científico sobre os benefícios e a segurança desses produtos é bastante limitado.

Uma pequena pesquisa realizada nos Estados Unidos com pais de crianças que sofrem convulsões frequentes, publicada no ano passado, trouxe alguns dados. Participaram apenas 19 famílias que trataram os filhos com maconha com alto teor de canabidiol.

Duas famílias (11% da amostra) declararam que a criança ficou completamente livre de convulsões. Oito famílias (42%) observaram redução superior a 80% na frequência das crises. Seis famílias (32%) notaram redução de até 60% na frequência dos episódios.

Isso não significa que fumar maconha faça bem à saúde. “Usar um componente presente na maconha como medicamento, aprovado de forma adequada pelas autoridades do país, é uma coisa”, diz Laranjeira. “Fumar maconha, acreditando que isso trará benefícios médicos é outra. Não existem evidências capazes de sustentar essa ideia”.

Quem defende a legalização da maconha argumenta que os benefícios superariam as possíveis consequências negativas. A medida evitaria prisões por porte da droga, reduziria os lucros dos traficantes e permitiria que os recursos do Estado fossem direcionados a combater crimes mais sérios e violentos. Há quem sustente que a legalização não aumentaria o consumo da droga entre os jovens.

Quem é contra a legalização argumenta que os possíveis benefícios são tímidos diante das consequências adversas. A decisão facilitaria o acesso dos jovens à droga, aumentaria os acidentes de trânsito e os custos dos tratamentos de saúde física e mental. Os próximos dois anos, segundo Sabet, serão cruciais para saber qual dos dois lados tem razão.

(Cristiane Segatto escreve às sextas-feiras)

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  • Usuário Growroom

Vou postar aqui os emails que troquei com ela:
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Bom dia Cristiane,

Te admiro muito como jornalista, mas infelizmente, eu acredito que sua matéria caiu em contradição ao tentar ser imparcial no primeiro parágrafo diante dos fatos expostos em seguida.
Como os dados de qualquer pesquisa, existem 1.000 jeitos de mostrá-los e interpretá-los. E aí que eu acredito onde ficou o viés da sua matéria.
Ficou de fora dos dados apresentados que também houve uma DIMINUIÇÃO do uso de maconha por jovens, por que eles começaram a considera-la "careta" (http://washingtonexaminer.com/so-far-colorados-teens-are-actually-using-marijuana-less/article/2551843)

Também ficou de fora que depois da regulamentação da maconha no colorado houve uma drástica DIMINUIÇÃO dos acidentes de trânsito (segundo o WashingtonPost, uma baixa histórica) (http://www.washingtonpost.com/news/the-watch/wp/2014/08/05/since-marijuana-legalization-highway-fatalities-in-colorado-are-at-near-historic-lows/)

Diminuição de homicídios nos estados que regulamentaram a maconha (http://reason.com/blog/2014/03/27/more-pot-less-crime-medical-marijuana-st)

Diminuição do uso de drogas mais pesadas como a cocaína (http://www.businessweek.com/articles/2014-03-10/more-pot-less-cocaine-sizing-up-americas-illicit-drug-market)

No mais, agradeço se puder fazer uma apreciação desse material que te envio.
Att,
__________________________

Olá, Xxxxxx
Muito obrigada pela mensagem tão educada e pelo material enviado. Adoro quando recebo críticas desse tipo. Essas são as construtivas. Não tenho a pretensão de saber tudo e desconfio bastante de quem acha que sabe. Vou olhar esses links assim que possível. Concordo com você: há mil formas de interpretar uma pesquisa e há pesquisas e pesquisas. Não fiz uma reportagem sobre maconha. Fiz uma coluna para anunciar dados novos de um estudo amplo. É uma contribuição para o debate. Só isso.
Colunas são espaços de opinião. Acho que o defeito desse meu texto é ser pouco opinativo. Deveria ser mais. Não quis fazer um texto opinativo justamente por entender o tamanho do debate e por respeitar opiniões dos dois lados.
Grande abraço e até a próxima,
Cristiane Segatto

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Olá Cristiane,

Apesar de ser totalmente a favor, respeito os dois lados da moeda e acho que só debatendo com respeito e cabeça aberta que vamos chegar em algum lugar, no assunto que seja.

Pesquisando um pouco mais sobre as pessoas envolvidas na sua coluna, descobri que o Dr. Ronaldo Laranjeira, apesar de um trabalho muito acolhedor com dependentes de crack, é um ferrenho proibicionista.

O problema maior ao meu ver dessa polarização extrema desse debate é classe médica tomar partido (alguns até bem radicais), sejam a favor ou contra. E estes, utilizam apenas os dados e as pesquisas que lhes forem convenientes para afirmar seu ponto de vista.

Outro exemplo que te cito é do respeitadíssimo toxicologista Anthony Wang que em suas periódicas entrevistas a rádio Jovem Pan sobre o assunto, faz questão de frisar todos os aspectos negativos, citando somente pesquisas de um mesmo autor, do qual não me recordo o nome, mas que é outro proibicionista cego. Mas é aquilo, está na rádio, logo, é verdade. Isso é um desserviço a população.

Novamente, convido-a para conhecer, caso não conheça ainda, o trabalho realizado pelo Dr. Elisaldo Carlini. Pioneiro no Brasil no assunto cannabis, uma sumidade no assunto. Gosto muito das explanações, entrevistas e palestras do Dr. Carlini, pois apesar de ser defensor por uma regulamentação, sempre deixa claro todos os malefícios e todo o ecossistema educativo e preventivo que precisaria ser criado.

Novamente agradeço a atenção Cristiane.

Att

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Oi Xxxxx
Recebo entre 400 e 500 emails por dia. Não é fácil administrar minha caixa, mas procuro sempre responder mensagens de gente educada. Educação é artigo raro hoje em dia. Conheço o Dr. Carlini há bastante tempo. Também o admiro bastante.
Obrigada pelo contato e parabéns pela lucidez.
Grande abraço,
Cristiane Segatto
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Realmente, é muito difícil rebater esses argumentos, que são despejados sobre a população mais desinformada e mais moralmente afetada...

É muito simples, e esperado, que todos esses números subam a medida que as pessoas se sentem seguras pra assumir tal conduta... Pois não vão mais presas ou reprimidas.... Ou seja, a medida que foi legalizada, as pessoas perderam o medo de assumir que estavam sob o efeito da maconha, tanto nos acidentes de trânsito, quanto nos hospitais e sobre o próprio consumo...

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